Casa Comum apresenta “Todo o Abel Salazar”

São livros, objetos da vida quotidiana, objetos científicos, mobiliário, reflexões políticas, filosóficas, existenciais e peças artísticas, vestígios de um trilho para chegar um pouco mais perto do homem que celebrizou a frase “um médico que só sabe de Medicina, nem de Medicina sabe”. A exposição Todo o Abel Salazar inaugura no próximo dia 14 de novembro, às 18h00, na Casa Comum (à Reitoria) da Universidade do Porto. E vem com um “brinde” especial. Depois de muitos anos guardado e fechado à chave num cofre, vai finalmente ver a luz do dia um livro escrito pela mão de Abel Salazar: Testamento de um Morto Vivo Sepulto na Casa dos Mortos, em Barcelos. A edição é da U.Porto Press.

“É a primeira vez que, num só espaço, fora da Casa-Museu Abel Salazar, se conjugam as múltiplas valências de uma personagem tão multifacetada como foi Abel Salazar”, começa por apresentar Fátima Vieira, Vice-Reitora da U.Porto com o pelouro da Cultura.

“Apenas como exemplo da singularidade e vanguardismo do seu pensamento, saliento o recurso ao desenho (sendo ele um desenhador compulsivo) como ferramenta de comunicação de ciência, nomeadamente o desenho microscópico, símbolo da junção perfeita entre o lado científico e artístico”, acrescenta. “Outra faceta do trabalho artístico que a exposição deixa bem patente é a relevância que atribui à presença da mulher. Desde a classe trabalhadora até à burguesia, num trabalho de representação que atravessa diferentes latitudes, é constante o destaque que dá à presença feminina”, conclui.

Para nos ajudar a fazer todo este percurso, entre objetos pessoais e profissionais, livros, reflexões várias, obras plásticas, esculturas e desenhos, a exposição apresenta mais de 100 objetos. Todo o Abel Salazar tem curadoria da Casa Comum (Alexandre Lourenço) e vai ficar patente nas Galerias da Casa Comum, até 17 de fevereiro de 2023.

Com entrada livre, a exposição pode ser visitada de segunda a sexta-feira, das 10h00 às 13h00 e das 14h30 às 17h30, e ao sábado, das 15h00 às 18h00. Encerra aos domingos e feriados.

A vida como um palimpsesto

Em Todo o Abel Salazar não poderia faltar o cientista e investigador, o professor, o pensador e escritor, o artista e o cidadão politicamente empenhado. Da mesma forma que não poderiam faltar os acontecimentos estruturais que moldaram o percurso e a personalidade complexa e multifacetada do filho mais velho de Adolfo Barroso Pereira Salazar e Adelaide da Luz Silva Lima Salazar.

Nasceu em Guimarães, a 19 de julho de 1889 e quando veio para o Porto, o menino que adorava comboios e sonhava ser engenheiro, foi estudar para o Liceu Central. Em 1915, concluiu (com 20 valores), o curso de Medicina na Faculdade de Medicina da U.Porto (FMUP) e cinco anos depois, já como professor catedrático, fundou o Instituto de Histologia e Embriologia da FMUP.

Até aqui, o percurso é conhecido. Menos do domínio público é o que se segue. O sofrimento acumulado de uma sucessão de perdas de elementos da família com quem tinha grande cumplicidade, problemas na academia e a forma como sentiu a agitação social da transição entre a república e a ditadura.

Estes são alguns dos fatores que terão estado na base de uma depressão nervosa que, em 1926, levou Abel Salazar para a Casa de Saúde de S. Francisco, no Porto, e depois para Casa de Saúde de S. João de Deus, em Barcelos. Chamou-lhe a “Ilha do Pavor, após o naufrágio”. Foi aqui que escreveu o Testamento de um Morto Vivo Sepulto na Casa dos Mortos, em Barcelos. Obra lançada agora pela U.Porto Press.

Uma tristeza lúgubre às costas

Numa carta enviada a um amigo (Celestino da Costa), Abel Salazar deu conta do estado que sobre si se abatera: “Imagine o horror da minha vida! Sem desenhos, nem trabalhos, nem ler, impossibilitado de tudo, com uma tristeza lúgubre às costas, sem poder sair por causa do aspecto horrível, negro, das coisas. Com as responsabilidades que tenho, que hei-de eu fazer, assim brutalmente aniquilado?”

O ato de escrever sobre a “doença intelectual”, diz-nos a médica psiquiatra Teresa Cabral no prefácio, fez com que falasse de si e de um dilema, do qual foi ganhando consciência “(…) o tempo voava e não me chegava para nada. Encravado entre duas paixões, a arte e a ciência.” As exigências da coabitação entre a atividade artística e a investigação científica, tinham exigido “um esforço desmedido. Porque os limites são primariamente os do Tempo”. Da filosofia à arte, e ao longo de cinco anos de internamento, Abel Salazar produziu cerca de 10 livros.

A consciência de que ainda é necessário combater a discriminação e o estigma social associado às doenças psíquicas pesou favoravelmente na decisão de publicar este Testamento d’um Morto Vivo sepulto na Casa dos Mortos, em Barcellos.

Vozes críticas não chegam ao céu da Ditadura

Em 1931, Abel Salazar regressou à vida ativa, ao trabalho científico, pedagógico e também à Pintura, à História, à Crítica de Arte, à Filosofia e à divulgação cultural, mas por pouco tempo. Avessa a vozes críticas, a Ditadura emitira uma portaria (de 5 de junho de 1935) que afastara Abel Salazar da cátedra, do laboratório, da biblioteca da Faculdade de Medicina e o proibia de se ausentar do país. O motivo: “a influência deletéria da sua ação pedagógica sobre a mocidade universitária.”

Apenas no início da década de 1940 lhe foi permitido voltar à U.Porto e, dessa vez ,para dirigir o Centro de Estudos Microscópicos na Faculdade de Farmácia. Trabalhou ainda no Instituto Português de Oncologia. Abel Salazar morreu em Lisboa, a 29 de dezembro de 1946, vítima de cancro de pulmão.

Mais de 50 mil no funeral

O corpo de Abel Salazar foi depositado na Casa do Distrito do Porto, em Lisboa, e dia 31 começou a organizar-se o funeral. Na viagem de trasladação do corpo, em Leiria, a polícia de escolta desviou o itinerário para evitar a passagem por Coimbra, e à chegada ao Porto foi diretamente encaminhado para o cemitério do Prado do Repouso. Ainda assim, nada conseguiu evitar que na manhã seguinte, centenas de pessoas integrassem o cortejo fúnebre iniciado na Casa dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto.

Cerca das 16h00, já mais de 50.000 pessoas marcavam presença. No momento em que a multidão dispersava, uma brigada de assalto armada decidiu intervir, causando pânico entre aqueles que ainda se encontravam no cemitério, nomeadamente Ruy Luís Gomes, que acabou por ser detido.

 

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